Aprender Depois dos 60 anos: tecnologia, família e escola em um mesmo ecossistema

Educação ao longo da vida na era digital: desafios, mediações e oportunidades para integrar gerações no processo de aprendizagem

A relação entre tecnologias digitais (TD), escola e família nunca foi simples e tampouco linear. Trata-se de uma tríade dinâmica, marcada por tensões, adaptações e oportunidades, que ganhou ainda mais visibilidade nos últimos anos, especialmente com a intensificação do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) nos processos educativos. Mais do que ferramentas, as TIC configuram hoje um meio de mediação social, cultural e pedagógica, exigindo novas formas de convivência, ensino e aprendizagem.

Historicamente, a escola ocupa um lugar estratégico na formação para a convivência, na aprendizagem da diversidade e na integração social. É nesse espaço que se consolidam práticas educativas mediadas por professores que atuam não apenas como transmissores de conteúdos, mas como mediadores sociopedagógicos, capazes de articular saberes, contextos de vida e estratégias diferenciadas de aprendizagem. Esse papel torna-se ainda mais relevante quando se considera a diversidade de trajetórias, níveis de socialização e acesso às tecnologias por parte dos estudantes e de suas famílias.

Por outro lado, a ideia de que vivemos em uma geração homogênea de “nativos digitais” tem sido progressivamente relativizada. Embora crianças e jovens estejam amplamente expostos a dispositivos móveis, redes sociais e jogos digitais, isso não significa, automaticamente, domínio crítico ou pedagógico das tecnologias. O uso cotidiano não garante competências digitais avançadas nem substitui a mediação educativa necessária para transformar informação em conhecimento significativo.

Além disso, o acesso e o uso das TIC continuam profundamente atravessados por desigualdades sociais, culturais e educacionais. Escolaridade familiar, capital cultural, condições econômicas e contextos territoriais influenciam diretamente a forma como as tecnologias são incorporadas ao cotidiano escolar e doméstico. A pandemia de COVID-19 escancarou esse cenário ao exigir, de forma abrupta, a migração para o ensino a distância, revelando tanto o potencial das práticas digitais quanto suas limitações estruturais.

Nesse contexto, recursos como plataformas educacionais, aplicativos móveis e ambientes virtuais ampliaram as possibilidades de comunicação entre escola, alunos e famílias, promovendo interações mais flexíveis, rápidas e bidirecionais. Modalidades como e-learning, b-learning e m-learning passaram a coexistir, redefinindo fronteiras entre o presencial e o digital. No entanto, tais avanços não se traduzem automaticamente em inovação pedagógica: sem intencionalidade educativa, a tecnologia corre o risco de apenas reproduzir práticas tradicionais em novos formatos.

O desafio, portanto, não está na tecnologia em si, mas no uso que se faz dela. As TIC não são mágicas nem neutras; são ferramentas potentes quando orientadas por projetos pedagógicos consistentes, sensíveis às desigualdades e comprometidos com a inclusão. Quando bem mediadas, podem fortalecer vínculos, ampliar o diálogo entre escola e família e promover aprendizagens ao longo da vida, inclusive, e de forma muito significativa, depois dos 60 anos.

Em síntese, pensar a educação na contemporaneidade implica compreender a tecnologia como um meio de mediação humana, capaz de conectar gerações, reduzir distâncias e criar novas oportunidades de aprendizagem. A escola, nesse ecossistema ampliado, segue insubstituível: não como único espaço de aprendizagem, mas como referência crítica, ética e pedagógica em um mundo cada vez mais digital.

SAMPAIO, Deyse Cristina Frizzo. Pessoas Idosas e Tecnologias Digitais.
Maracaju/MS, 2025

•⁠ ⁠Doutoranda e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu/UFRGS) na linha de pesquisa Informática na Educação, com graduação em Serviço Social.
•⁠ ⁠Especialização em Gestão Estratégica de Recursos Humanos e Docência no Ensino Superior.
•⁠ ⁠Pesquisadora e professora nas áreas: Estratégias Pedagógicas, Competências Socioafetivas e Tecnologias Digitais para o público 60+.

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