Vivemos um tempo de intensas transformações sociais, culturais e institucionais. A política está em constante ebulição, a família enfrenta novos desafios estruturais e a fé, por sua vez, tem sido tensionada entre a esfera pública e a vivência privada.
Falar sobre política, família e fé nos dias atuais não é apenas oportuno , é necessário.
Como pastor, compreendo que a fé não é uma ferramenta ideológica, mas um fundamento moral. Como cientista político em formação, reconheço que a política é o espaço legítimo do debate, da construção coletiva e da organização da vida em sociedade. O grande desafio contemporâneo está justamente na harmonização dessas três dimensões sem que uma anule a outra.
➢ Política: instrumento, não divindade
A política não deve ser demonizada, tampouco idolatrada. Ela é um instrumento de organização social. Em pensadores clássicos como Aristóteles, encontramos a ideia de que o ser humano é um “animal político”, ou seja, naturalmente vocacionado à vida em comunidade. No entanto, quando a política assume o lugar de fé absoluta ou quando se torna campo de intolerância, ela perde sua essência democrática.
Nos dias atuais, vemos a polarização transformar adversários em inimigos. O diálogo tem sido substituído por ataques, e a ética muitas vezes cede espaço ao pragmatismo do poder. É nesse cenário que a fé pode oferecer um norte: princípios como justiça, honestidade e serviço ao próximo.
➢ Família: base da formação cidadã
A família continua sendo o primeiro núcleo formador do indivíduo. Antes de qualquer ideologia ou formação acadêmica, é no ambiente familiar que aprendemos valores como respeito, responsabilidade e solidariedade. A fragilidade das relações familiares reflete diretamente na sociedade e, consequentemente, na política.
Quando a família se distancia do diálogo e da espiritualidade, abre-se espaço para a formação de indivíduos desconectados de referenciais sólidos. Não se trata de impor um modelo único de família, mas de resgatar sua função essencial: formar caráter.
➢ Fé: consciência e responsabilidade
A fé, quando autêntica, não aliena — ela conscientiza. Ela não manipula — ela transforma. O próprio ensinamento de Jesus Cristo demonstra equilíbrio ao afirmar: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21). Essa declaração não separa radicalmente fé e política, mas delimita responsabilidades.
A fé deve iluminar a consciência do cidadão, não controlar o Estado. O Estado é laico, mas a sociedade é plural — e essa pluralidade inclui convicções religiosas.
➢ O Desafio do Nosso Tempo
O grande desafio contemporâneo não é escolher entre política, família ou fé. O verdadeiro desafio é integrá-las de maneira saudável. Precisamos de uma política com valores, de famílias fortalecidas e de uma fé que inspire responsabilidade social.
Se a política perder seus princípios, a família perde segurança.
Se a família perder seus valores, a política perde cidadãos conscientes.
Se a fé perder sua essência, ambos perdem direção.
Mais do que discursos inflamados, precisamos de coerência. Mais do que militância cega, precisamos de maturidade cívica e espiritual.
Encerrando esta reflexão, deixo uma provocação:
Estamos formando apenas eleitores apaixonados ou cidadãos conscientes? Estamos defendendo bandeiras ou construindo pontes?
A resposta a essas perguntas determinará o tipo de sociedade que entregaremos às próximas gerações.

– Estudante de Ciências Políticas
– Coordenador Municipal de Proteção e Defesa Civil de Maracaju, Mato Grosso do Sul
– Casado há 17 anos e pai de dois filhos, une fé, família e serviço público em sua trajetória.
– Atua na edificação espiritual e formação de líderes, aprofunda-se em governança e políticas públicas e exerce papel estratégico na prevenção e resposta a desastres, com responsabilidade e compromisso com a segurança da população.